sábado, 10 de março de 2012

Entre reinos, estrelas e coroas


Naquela noite nem a lua conseguiu arrancar um sorriso da menina.
Da janela do outro lado da rua a menina via Dona Doralice regar as margaridas... Margaridas que tantas vezes foram platéia dos beijos, das trocas de carinhos de dois adolescentes apaixonados... As mesmas margaridas que hoje choravam ao ver o menino se despedir.
Os dois se encontraram na parte isolada do jardim da mãe do menino.
A menina foi surpreendida com uma coroa de margaridas que caiu perfeitamente bem com o vestido branco que usava naquela noite.
Decidiram juntos, que não diriam "adeus" de fato. Um beijo contemplado por lágrimas, um abraço apertado, sem palavras, sem depoimentos embaraçosos.
Entre eles só bastava um olhar e tudo já estava dito.
Os beijos repentinos, os encontros calados no jardim, o coração batendo a mil, a adrenalina correndo pelo corpo quando se tocavam, as mãos suadas, o corpo colado embaixo do edredom, a intimidade, os olhares, a descoberta do corpo alheio.
Reconheçam crianças tudo acaba aqui.
E pela última vez seus olhares se cruzaram, nem as lágrimas faziam companhia à ela agora. Quando a caminhonete vermelha sumiu na curva, uma chuva de facas cortou todos os órgãos da pobre menina, que mas uma vez se sentiu oca.
A princesa do reino das margaridas então subiu até a mais alto torre do seu castelo e observou o céu, estava tão triste quanto ela.
A menina amava olhar as estrelas, e dizia sempre que queria que a terra virasse de cabeça pra baixo só pra poder andar sob elas.
Os dias se passaram monótonos, sem sol, nem estrelas, no reino das margaridas só chovia. Chuva fria e fina que deprime até o seres mais alegres.
Do outro lado da rua uma casa abandonada, agonizando. Só as margaridas se mantinhas vivas, como a esperança de que um dia o rei voltasse.
Numa certa manhã a menina se surpreendeu ao ver o seu reino totalmente devastado, não haviam margaridas.
Onde estariam as margaridas do reino ?
Teriam morrido por saudade de seu rei ?
Crianças de rostos corados, brincavam e sorriam com as flores em mãos.
A rainha enfurecida correu para tentar resgatar a única lembrança concreta do seu rei.

Pobre menina!
Havia enlouquecido então ?
Havia enlouquecido no seu próprio mundo de fantasia?
Capaz agora de se enfurecer com criaturas tão doces ?
A obsessão pelas margaridas tomou todo seu ser ?
Pobre menina...
Então vá rainha do reino das margaridas mortas, suba as escadas e se tranque na mais alta torre do seu castelo de ilusões e infelicidades.

A menina refletiu a noite toda sobre o que havia se tornado, não se conformava em ter perdido a vitalidade, em ter perdido a doçura que sempre fora sua marca registrada. Decidiu então naquela noite, prometeu diante da lua que só viveria dias de sol.
Dali em diante, a menina foi seguindo sua vida, dando continuidade, e mal tinha tempo para olhar pro jardim da casa da frente, em seu diário até tinha um nome novo desenhado dentro do coração.
E ela tinha enjoado de margaridas agora preferia girassóis.
Num dia comum, ao puxar um livro de contos, a coroa de margaridas - agora mortas e sem beleza- veio junto.
Surpresa a menina olhou o objeto que lhe remetia a tantas lembranças.
Diversas vezes depois a menina colocou a coroa, mas aquilo não parecia ter mais sentido algum
Corra menina! Suba as escadas o mais depressa possível, pois hoje o céu está lindo, e a companhia melhor ainda.

beijo da helô

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